Numa volta pelo corredor encontrei, por acaso, um velho conhecido que
há tempos eu não via. Eu não sabia que ele estava ali e fiquei surpreso
com este reencontro. Na verdade, o que mais me surpreendeu foi o fato
de ele viver ali ainda, daquele mesmo jeito, o cabelo desgrenhado e a
cara de abobado; o fato de ele ainda estar vivo, de alguma forma... sem
alimento, sem sustento e sem ar pra respirar.
Sorrimos e apertamos as mãos.
E nesse apertar de mãos, compreendi que eu o alimentava sem saber, e
que ele tinha de mim tudo que precisava pra continuar existindo até o
momento em que eu o libertasse de novo, também sem saber. Era por isso
que eu sentia tanta fome, aquele apetite atroz que me fazia querer
devorar o mundo em três bocadas.
Acendi a luz do seu quarto há tanto abandonado e também meu corredor se iluminou. Com
esta claridade repentina, meus olhos lacrimejaram um pouco. Tenho que
me acostumar novamente, e lembrar para onde pretendia seguir.
"Todas as coisas tem que passar."
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