terça-feira, 6 de maio de 2014

Engasgo

Não sei mastigar devagar. Um dia tentei, no outro falhei. Numa noite passada há tempos, em tempos onde as preocupações eram menores, meu vômito me disse que deveria repensar este hábito. Repensei-o. Segui a praticá-lo da mesma forma - errada.

Faz mal a mim, mastigar assim. Mas nunca consegui evitar por mais de algumas garfadas. Depois da goela, tudo é bucho e penso que só vou precisar saber diferenciar quando algo ali causar incômodo.

Minto. Jamais aprendi a apontar o que causa o angustiante incômodo que, fosse físico, seria azia, essa coisa que me é anônima e persegue meus dias, tal qual persigo as noites que devem seguir as tardes malpassantes - que acabam a passar; e pesar. Pesa-me o estômago não saber lidar com as intragáveis rotinas que alimentam meus dias.

Eu solto o ar no fim do dia, perdi a vida

Eu só sei que não sei mastigar devagar. Engoli tranqueiras que custo a digerir; enquanto o tempo me digere a mim e a nós, ele que já nos devorou há tanto si. Sobre saber o sabor de um sapo, eu diria que há pouco a dizer; nem a isso saboreamos. Consumimos a qualquer item como se fosse uma pílula frívola de passagem temporânea - sem gosto, sem gostar, soltando o ar no fim do dia, perdendo finalmente a vida, na única evolução que conseguimos realmente acompanhar: nascer e morrer, comer e cagar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ah, nuvem
Tu sabes que eu simporto
Me importo o suficiente para evitar o trocadilho que surgiria a seguir
Ah, balões
Quem dera eu tivesse algo a dizer today.
 Day by day

quinta-feira, 20 de março de 2014

Apóstrofo

Sou escritor em fuga; corro para frente buscando uma saída, paro para pensar e me arrependo de ter parado. Não tivesse parado, não me arrependeria - por não ter parado ou por não poder sem parar? Fujo.

Não fugisse, escreveria. Seria escritor escrevente; escreveria. Mas fujo. Arranjo tempo depois da correria. Antes, tenho algo a aprender e algo a lembrar. Amanhã tem geleia. Mas ontem tinha acento. Não importando esta regra que teimo em aprender, consigo escapar da obrigação de escrever o que eu queria ter escrito. Preciso, para isso, contornar uma barreira, um desvio; fujo.

Soubesse para onde ir, iria. Fugir não envolve o destino próximo, mas o anterior. Fugir daqui, sem saber para onde. Paro. Penso e me arrependo de pensar. Não pensasse, saberia o que dizer. Sigo a fazer o que sei, sem nada dizer: fujo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Entre nós

Lá dentro vive um mundo minúsculo.
Eu poderia morar ali.
Eu poderia causar transformações ali.
Poderia trazê-lo abaixo, desfazer seus caminhos;
Se eu desamarrasse o portal que existe entre nós,
nada seria como era.
Decido por deixá-lo assim e ir embora.
Enquanto as mudanças invisíveis vão acontecendo, eu fico aqui parado:
olhando pelo buraco da fechadura.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

I Can Feel Him in the Morning

Eu consigo sentir. O quê?
Eu posso ouvir. O quê?
Uma voz me conta sobre o dia de ontem, 
e das noites que virão.
Eu consigo vê-lo, por entre as nuvens
Em cada manhã, uma revolução nos saúda.
Que falta de educação a nossa; jamais respondemos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Corda da Discórdia

Tu;
já teve a sensação de uma voz, de fundo, te acompanhar tendo sempre algo a dizer, pronta a emitir uma discordância com qualquer recém descoberta razão de felicidade, qualquer novidade que tende a ser agradável, mostrar que tem uma ponta desfiada, um algo errado por todo lado, como a terceira corda insistindo em ficar meio tom abaixo, estragando logo o primeiro acorde que tu toca depois de ter tirado o violão do cantinho onde estava escorado na parede, depois de um bom tempo esperando pra chegar em casa com saudade do sossego e tocar qualquer coisa suave, um acorde sem pestana, uma música calma, que soa toda tensa por causa daquela corda, aquela nota errada ali no meio, quebrando ao meio tua expectativa, dizendo que a tranquilidade não é pra agora, que tu achou mesmo que ia ser fácil, que o mundo girou enquanto tu tinha o olhar fixo em algum lugar de onde não percebia quase nada acontecendo, ali está ela, aquela discordância que insiste em explicar que essa ilusória percepção de felicidade, bem, ela é realmente ilusória, não passa de uma circunstância mal analisada, se algum som não soou errado é porque nem todas as cordas foram tocadas, e ali está a corda do sol, mais solta do que deveria, mais grave do que tu esperava na tua concepção otimista de uma ordem pré-determinada por alguém que não tem a capacidade de garantir que ela seja cumprida, ali está um demônio te lembrando que teus sonhos sobre nuvens fofas não durarão mais que um cochilo, que esse repouso vai te custar a baba no travesseiro, que ocupar a mente vai te trazer algum esquecimento, e que lembrar de algo bom vai te fazer esquecer de algo importante, pois bem, existe em algum lugar uma fada macabra que veste um vestido roxo rasgado e tem bafo de bife acebolado e ela está ali pra te lembrar de que tuas ideias não são teu domínio, ela está ali guardando todas as percepções que tu atirou pra algum canto a esquecer, mas ela, ela não esquece, ela faz questão de te lembrar de que tu é uma criatura mundana, um ser quase contente acorrentado de maneira irrevogável à tua consciência; Já? Ein? Einhê?

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Eis aqui um blog de pouca escrita.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Eis aqui um blog de muita estima.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Eis aqui um blog pessimista.

sábado, 30 de março de 2013

Chá de Boldo

    Sendo engolidos pelos tempo? Não, não. Isso foi ontem, ou semana passada, não sei dizer com certeza. Estamos sendo digeridos por ele, agora. Sendo preparados pra virar cocô, sabe? Bosta. Merda. Alguns demoramos mais a ser digeridos, temos muito a deixar pregado, impregnado na linha circular do tempo, antes de sermos tragados para fora; para ajudar nesses casos, ele sorve um adocicado e fervente chá de boldo.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sobre o Mesmo

    Passei de música muitas vezes; não queria ouvir as mesmas de ontem, mas ela se repetiam mesmo assim. As prateleiras do supermercado era as mesmas da semana passada, com aquela falta de surpresas de sempre. Bob Dylan continuará sempre sendo o xis frango, mas eu não tenho o apetite de antigamente. Tenho, na verdade, a impressão de que foi apenas um sonho. Pode ter sido a fumaça que afugentou a nitidez, pode ter sido o trago que estragou minhas lembranças. A sorte do dia se repetia e nenhuma poesia brotava enquanto o dia passava; as vírgulas me trancam a goela e eu tento fugir para um ponto final, ao qual imediatamente renuncio, tentando dizer algo mais.

terça-feira, 26 de março de 2013

Sobre Pinceladas de Mistério

    Eu olhava pela única janela possível e jamais saberia explicar o que sentia. Foi um transe, saca.
    Ouvindo Neil Young eu mergulhei pesadamente em algum lugar em que não lembro de ter estado antes; nem reconhecerei se voltar exatamente lá, a visão era pouco nítida e nunca fui um bom observador visual. Me perco em lugares que já passei, as vezes, sabes bem.
    Ah, lembro de algumas coisas dessa viagem curta que eu tive. Lembro de estar num lugar iluminado, luz solar no sub-trópico, um belo efeito de fim de tarde. De alguns lados, uns prismas insuspectos cintilavam, sem a ousadia de um arco-íris que, não custava nava, poderia ter aparecido. Não que eu precisasse dele. Naquele momento, não precisava de coisa alguma.
    Foi um brilho que durou pouco e que me trouxe uma compreensão inexplicável. Ali eu o entendia, mas sabia que jamais seria capaz de explicar e que, no momento em que tentasse descrevê-la, esta compreensão evaporar-se-ia; como as gotículas colorizantes que permeavam minha vista, fadados estavam a desaparecer: aquele momento, aquela luz, esse sujeito.
    Eu não sei o que foi isso que passou por mim, esse trovão gorgolejante que veio me pegar pela canela, me jogar num rio ou na sarjeta. Não sei como chamar esse momento e essa luz. Sei, apenas, que eram mistério. Eram, portanto, belos.
    Chega de tentar.